Anarquismo e a questão do sexo & Outros Escritos

31 03 2014

 Anarquia e a questão do sexo e outros escritos, reúne a tradução de cinco textos da “perigosa” Emma Goldman, publicação do Difusão Libertária que busca instigar leitorxs às ideias e questões discutidas por ela no debate sobre anarquismo, sindicalismo, propriedade privada, gênero, casamento, amor e sexo, dentre outros, temas recorrentes desta grande militante por uma sociedade libertária.

Cartaz 2

Por: Andréa Xaves

“Vejam vocês, moralistas e filantropos, este contraste surpreendente, e me digam de quem é a culpa!”

             Conclama Emma Goldman no panfleto Anarquia e a questão sexo. Conclama, como em tantos outros discursos, ao enfrentamento das contradições deste sistema autoritário, manipulador e cerceador da existência livre dos indivíduos.

Goldman nos fala sobre o anarquismo, sobre a luta por autonomia e liberdade, sobre a construção de uma sociedade em que estes dois elementos não estejam dissociados das aspirações de uma coletividade, da construção de uma coletividade possível que rompa com o sistema de exploração à qual trabalhadores e minorias oprimidas são submetidos.

“Uma terra livre para indivíduos livres!” frase de Goldman que o leitor desta publicação poderá encontrar no encerramento do editorial de lançamento do períodico Mãe Terra, um texto de evocação à Terra como local da vivência e pertencimento à todos, de alcance livre e suficiente às necessidades da humanidade.

A crença no sindicalismo, na ação direta, na organização e educação de trabalhadores do campo e da cidade para a reconstrução de uma sociedade onde a produção tenha por objetivo não o fortalecimento ou enriquecimento de poucos, mas sim o “benefício de toda humanidade” é tema de Goldman no panfleto Sindicalismo: a ameaça moderna ao capitalismo. Segundo ela há na anarquia a inspiração necessária para esta mudança.

Membro de uma sociedade onde casamentos eram deliberadamente constituídos por arranjos entre famílias e a mulher negociada tal qual uma mercadoria, no panfleto Anarquia e a questão do sexo, Goldman discorre sobre implicações da instituição do casamento para homens e mulheres. Não tão distante dos dias atuais e claramente identificadas em moldes próximos aos da época, principalmente fora dos eixos dos grandes centros urbanos nos quais parte das mulheres consegue estabelecer uma relação de autonomia diferenciada, as questões abordadas por Goldman encontram consonância com vasta literatura de autores feministas e clássicos.

O Segundo Sexo de Simoni de Beauvoir (1949/2009, p. 400) nos apresenta sob a idéia de o “Outro absoluto” a configuração da mulher, um outro que de tão distinto do eu da sociedade, normativamente masculino, ultrapassa o conceito ordinário de alteridade enquanto o instante em que o sujeito se acha diante do que não é ele mesmo, restando-a a identificação como objeto.

Bourdieu (1998/2002, p.56) em A Dominação Masculina evoca Lévi-Strauss e o tabu do incesto para falar da redução das mulheres a objetos e do sistema de trocas simbólicas:

 

O tabu do incesto em que Lévi-Strauss vê o ato fundador da sociedade, na medida em que implica o imperativo de troca compreendido como igual comunicação entre os homens é correlativo da instituição da violência pela qual as mulheres são negadas como sujeitos de troca e da aliança que se instauram através dela, mas reduzindo-as à condição de objetos, ou melhor, de instrumentos simbólicos da política masculina: destinadas a circular como signos fiduciários e a instituir assim relações entre os homes, elas ficam reduzidas à condição de instrumentos de produção ou de reprodução do capital simbólico e social.

 

Sobre o casamento Lévi-Strauss (1908/1982, p.155) em As Estruturas Elementares do Parentesco nos trás:

 

A relação global de troca que constitui o casamento não se estabelece entre um homem e uma mulher como se cada um devesse e cada um recebesse alguma coisa. Estabelece·se entre dois grupos de homens, e a mulher ai figura como um dos objetos da troca, e não como um dos membros do grupo entre os quais a troca se realiza.

 

As citações acima nos apontam como base da formalização do casamento o estabelecimento de um sistema de trocas, que envolve o objeto mulher em um negócio entre homens. Sendo este movimento circulatório basal das relações de parentesco na sociedade ocidental.

Pouco estruturado no amor – o único elemento que deva ser considerado a erigir uma união segundo Goldman – é inevitável a falência desta instituição. É inevitável que cada uma das partes absortas as necessidade de manutenção de seus lares, implicados pela pobreza, num recorte de classe, e dificuldades impostas pelo mesmo sistema que fez, e regulamenta, a realização deste contrato, não se vejam impacientes, irritados e infelizes em suas companhias sem se desejarem, sem conseguirem sequer cooperar para a luta diária pela sobrevivência e contra as opressões que lhes afligem.

Goldman expõe que a mulher, indivíduo oprimido fora e dentro desta instituição, e independente se membro da burguesia, nobreza ou classes empobrecidas, arcará com o maior peso deste fracasso. Economicamente dependente, enclausurada no lar pelo labor doméstico, amedrontada demais pelas exigências morais desiguais entre si e seus companheiros, para buscar satisfação afetiva e sexual fora do casamento, tendo ainda sobre si a responsabilidade da “criação” dos filhos, pouco lhe resta de esperança em uma existência livre e plena.

Outro elemento trazido no panfleto é a incisiva afirmação de Goldman que a mulher impelida ao casamento, ou a que vende favores sexuais, estão igualmente dentro de um esquema de prostituição, estando em posição de privilégio a segunda que pode ainda abandonar a qualquer momento seu comprador.

Na anarquia Goldman vê uma inspiração à constituição das uniões, sem formatos definidos ou regulamentados pelo Estado e Igreja, livres do determinismo do “até que a morte os separe”, passível de dissolução à vontade de uma das partes, tendo unicamente como elemento fundante e de permanência o amor e a vontade de compartilhamento. Onde famílias terão seus filhos educados também pela comunidade como partes de um coletivo, responsabilidade de todos. Uniões dissociadas da noção de posse ou propriedade dissolvendo a base estrutural do ciúme, livrando mulheres e homes das angústias por ele causadas e a sociedade da irracionalidade dos atos que evocam ele como motivo.

Feminista, anarquista, inflamada pela luta contra as opressões de um mundo capitalista e patriarcal, um sistema discriminatório e violentador, filha de um casamento arranjado viu e viveu na pele o peso de uma família assim constituída e a crueldade com suas partes. Sobre essa instituição evocou no ensaio Casamento e amor o mote do Inferno de Dante: “Deixai toda esperança, ó vós que entrai!” para contundentemente dizer do quanto que de uma união pautada pela falta de liberdade entre seus membros, estabelecido num conjunto de regras e formatos e, ainda, regulado pelo Estado e pela igreja, não se deve esperar nada além de fracasso e insatisfação.

Contundente também é Goldman ao falar sobre sua fé no amor, uma força toda poderosa desafiadora e capaz de mover mulheres e homens à liberdade. Um amor livre de convenções, de desigualdades, um amor dissociado de qualquer ideia de posse ou propriedade. Em célebre frase do ensaio ela guia “Amor livre? Como se o amor pudesse ser de outro modo que não livre!”.

Por fim o que se apresenta nesta publicação é o discurso de uma mulher que não dissociou a prática política da experiência de sua vida, que no apontamento das contradições da sociedade fez muito mais do marcar culpados, usou suas palavras como um instrumento de chamada à consciência, mas principalmente de luta à liberdade.


 

Referências

 

BEAUVOIR, Simone de. O Segundo Sexo I – Os factos e os mitos. Tradução Sérgio Milliet. Lisboa: Quetzal, 2009.

 

BOURDIEU, Pierre. A Dominação Masculina. Tradução de Maria Helena Kühner. 2. ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2002.

 

GOLDMAN, Emma. Ciúmes: Causas e uma possível cura. Disponível em “http://amoryanarquia.wordpress.com/2012 /01/19/ciumes-causas-e-uma-possivel-cura-emma-goldman/”. Acesso em: março de 2014.

 

LÉVI-STRAUSS, Claude. As Estruturas Elementares do Parentesco. Tradução de Mariano Ferreira. Petrópolis: Vozes, 1982.


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