Machismo no Anarquismo: combate e enfrentamento num debate necessário.

17 01 2015

A recém fundada Organização Anarquista Maria Iêda publicou, como segunda manifestação pública da sua existência um documento intitulado “Anarquismo e Machismo?”. Este texto soma-se a outros posicionamentos recentes que evidenciam o surgimento de uma discussão feminista e/ou de gênero no contexto do movimento libertário de Recife. A menção ao Coletivo Difusão Libertária no documento publicado por esta organização nos motiva a fazer algumas considerações também públicas.

O documento inicia sugerindo que a junção dos termos anarquismo e machismo poderia ser chocante, porque “não se espera de pessoas que ideologicamente afirmam ser contra todo tipo de dominação a repetição de comportamentos machistas.” De fato, quem assume uma posição política está em busca contínua da concretização atual do que propõe no seu discurso. Ainda assim, é evidente que a passagem da ideia à ação é um movimento sem fim de busca e aprimoramento. Em outras palavras, raramente é completo abarcando todos os aspectos da vida.

Lembramos do que dizia frequentemente uma certa pessoa que quando estava próximo de nós, fazia uma colocação repetida que era, mais ou menos assim: “É preciso fazer política na prática, colocar a mão na massa para aprender que a realidade é suja.” Realmente a realidade social é “suja”, cheia de contradições, incoerências, desacertos de tal forma que x trabalhador(a) que luta pelo socialismo carrega dentro de si valores do consumismo capitalista, por ser bombardeada diariamente com a propaganda e publicidade; x ecologista que luta em prol da preservação da natureza não consegue se eximir completamente do uso de transportes movidos a derivados de petróleo e de utilizar produtos que provém de uma economia não-sustentável; assim como x anarquista pode ter conta em banco, carteira de identidade emitida pelo estado, até ser funcionário público, assim como quem luta contra o machismo não pode imaginar que não traz ele dentro de si, que não realiza atos de machismo. Só pode chocar a junção dos termos “anarquismo” e “machismo” quem não tem clareza de que pertencemos a essa realidade social contraditória, desigual, depredadora e machista; só pode chocar para quem fala da “sujeira da realidade”, imaginando estar fora dela, avaliando a todos e todas do seu pedestal de guardiã suprema da pureza militante.

Nada disso está sendo dito para transpor a responsabilidade que temos que assumir e assumimos para uma espécie qualquer de “determinação absoluta do indivíduo pelo meio”, o que está dito é que somos humanos e, ainda que anarquistas, estamos marcadxs pela sociedade que nos rodeia.

Porque estamos em movimento e no aprendizado, o Coletivo Difusão Libertária considera bem vindas as críticas apresentadas no documento publicado. De maneira aberta e franca, nós admitimos que cometemos erros e equívocos, reconhecendo isto publicamente. Lamentamos também que falhas de comunicação, falta de atenção e descuidos nossos tenham gerado esta situação que é contrária ao que pretendemos construir. Lamentamos termos contribuído para construção de um espaço que uma companheira tenha reconhecido como não seguro para uma mulher, não acolhedor, não solidário. Pedimos desculpas as companheiras envolvidas pelo nosso comportamento e/ou falta dele.

Esta problematização, este enfrentamento é necessário, é nesse sentido que a crítica é bem-vinda, porque sabemos que numa relação de dominação x oprimidx é que tem todo interesse em “virar a mesa”. Para muitos homens da sociedade atual é confortável, fácil, imediato não perceber, ignorar e desconsiderar o quanto são opressores. Está mais do que certa a afirmação do coletivo anarco-feminista boliviano Mujeres creando de que “não há nada mais parecido com o machista de direita do que um machista de esquerda”, porque ambos necessitam reconhecer dentro de si o predomínio do patriarcado, mas a diferença entre eles se dá na realização da mudança, isso é no reaprender. A militância é escola. Certamente surgirão consequências positivas e pertinentes para o movimento libertário em Recife a partir dessas discussões e críticas e nós reiteramos que continuamos abertos ao diálogo.

O Difusão Libertária vem atuando desde sua fundação como um coletivo, não há, não houve, funcionamento diferente que faça, ou tenha feito, deste espaço um reinado. Nossa proposta de atuação não é um “coletivo” de um indivíduo, e muito menos para o exercício dominador das vontades individuais de quem quer que seja. Embora reconheçamos que é sim possível o devaneio do exercício de poder e autoridade dentro dos espaços libertários, tocados pela forma geral que nossa sociedade vive a política, ressalvamos – esta não é, e nunca foi nossa forma de trabalho.

Já dissemos que a crítica é bem-vinda, o dedo foi apontado para nós e aqui estamos reconhecendo o erro e procurando com este aprendizado não errar mais ou errar menos. Sabemos bem que palavras são capazes de construir discursos cheios de coerência, facilmente só textual, e vazios das práticas que lhes sustentam. Mas queremos dizer que se aceitamos a crítica, não aceitamos o estigma e a proposta de isolamento.

Não aceitamos o estigma, porque nenhum ser humano ou grupo pode ser reduzido a atos cometidos, ao seu passado, ser fixado e rotulado para todo o sempre em função de seus erros.

Nosso coletivo é composto por mulheres e homens onde aqui, publicamente, nos colocamos para acolher as críticas, trazer ponderações e problematizações surgidas a partir das provocações do documento citado, mas que também vem sendo amadurecidas internamente há algum tempo. As mulheres parte do coletivo rejeitam, agora e no tempo em que assim estão, a ideia de papel, expresso ou simbólico, atribuído que não seja o de militante, admitindo no entanto que o fato de não se verem neste contexto não pretende negar que possa ter existido em tempos diferentes, reconhecem apenas que hoje, pelo fazer do coletivo, não é esta a prática, não é esta a realidade. Assumem que tanto nos homens do coletivo, quanto nos do meio libertário, tais quais de toda sociedade que vivemos – e que é única, está presente o arquétipo do macho, que o exercício de enfrentamento das mulheres é diário, que o exercício de se “desconfortarem” os companheiros militantes deve-o ser mais aplicado ainda. Acolhendo a fala da companheira que militou neste espaço, e não a enxergando ou sentindo no agora, vimos aí já demonstração da capacidade e sentido de construção e reconstrução, aprendizado e reaprendizado à passagem da ideia para a ação.

Não desconsiderando, diminuindo ou negando a dor por qual tenha passado a companheira ao não se sentir segura no seu espaço de militância, não negamos o quanto o rótulo de machistas, atribuído ao Difusão Libertária, apresentado pelos que assim o fizeram enquanto qualidade intrínseca, imutável e irreparável nos incomoda – mulheres e homens em exercício, em movimento.

Não aceitamos a sugestão de ostracismo e isolamento, porque ela extrapola o direito de dar a sua versão dos fatos, de dizer sobre seus sentimentos, de fazer uma crítica aos envolvidos e de escolher, e falar sobre, suas alianças. Ao propor o boicote de pessoas e coletivos, a nova organização anarquista do documento se institui no papel de um tribunal que se arvora ao direito de julgar sumariamente, decretando veredito perpétuo de “culpado” e determinar como pena “exclusão, isolamento, ostracismo.” Não concedemos esse direito a ninguém!!

O Coletivo Difusão Libertária, que há seis anos mantém-se atuando na cidade do Recife, irá continuar a fazer seu trabalho, pequeno e pontual, de agitação e propaganda anarquista. Continuamos. Preferimos diante deste enfrentamento, que poderia agir como uma força destruidora, fazer dele um alerta às nossas consciências, às nossas práticas – escolhemos manter nosso trabalho justamente por nos vermos sujeitos de nossas ações, capazes de refletir sobre e nela nossas ideias. Aquelxs que consideram nossas ações válidas, quem tem sugestões de ações conjuntas, que não veem humanos, e claro também a si, como seres acabados, que erram tentando acertar, e acertam, são bem-vindos. Aquelxs que não, que escolhem não trabalhar conosco, tem o nosso respeito, desejos de força na sua militância. Na medida do quão tenham sido ou estejam afetadxs por estas e outras situações de conflito que se apresentem no meio libertário, mantenham-se firmes e comprometidxs, clarxs dos seus propósitos, na influência à anarquia desta nossa sociedade. É certo que o meio anarquista precisa avançar no desenvolvimento de espaços de mediação conflitos que apontem para horizontes de justiça e liberdade a fim de perseguir a coerência necessária à construção de uma sociedade fundada nos princípios do socialismo libertário.

Que cada um e cada uma avalie a situação e sinta-se, como é, livre para tomar posição. Nós estamos aqui.

Difusão Libertária!!

Presente!!


Ações

Information

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s




%d blogueiros gostam disto: