O monopólio do Estado no ensino

12 04 2016

“Não basta reconhecer que a escola atual é ruim. Nos interessa demonstrar que somos capazes de torná-la melhor”.

Capa do nº1 de Out_1912Texto de Julio R. Barcos, Publicado em La Escuela Popular, Periódico da Liga de Educación Racionalista, Argentina. Publicado em 1º de outubro de 1912.

JBarcosJulio Barcos (1883-1960) foi um anarquista e educador argentino, fundador da Escola Moderna de Buenos Aires (1908), e um dos fundadores da Liga de Educação Racionalista (1912) ao mesmo tempo em que desempenhou o papel de inspetor, visitando escolas estatais argentinas, monitorado e avaliando suas condições de funcionamento. Estava, ainda, entre xs fundadorxs da Internacional do Magistério Americano (1928).

O monopólio do Estado no ensino

O Estado, fiel aos princípios especuladores da sua conservação, tem se apoderado da direção e administração da instrução pública.

A educação da Juventude tem sido, nas etapas modernas da civilização humana, uma preocupação neutralizadora do progresso encarregada de afirmar o poder das instituições constituídas, consagrando os erros do passado, e erguendo sobre o pedestal da tradição e da rotina, em um monumento absurdo, as cegueiras e as injustiças do presente. Por isso, o Estado que sempre foi uma entidade abstrata que absorve todos os direitos individuais, reduzindo a zero o indivíduo quando assim o exige seu absolutismo metafísico, se apossou da Educação.

Qual foi o pretexto? Dar uniformidade de objetivo à obra Educacional do país: ” fazer patriotismo”, o que não é o mesmo que fazer “pátria”, antes e ao contrário, é coisa muito oposta.

A outra razão é de caráter econômico. Distribuir por igual os benefícios do ensino a todas as crianças. Mas como a obra oficial é sempre deficiente, venal e egoísta, e como o estado é péssimo administrador do dinheiro público, em que isto resulta na prática?

Em que a escola estatal não educa: não Forma a personalidade do futuro ser apto a liberdade para a ação pessoal na luta pela vida e pelos ideais da vida mas, ao contrário, engana a inteligência infantil, deprime, embrutece, fragmenta, humilha a alma da juventude que frequenta as suas aulas. Isto no que diz respeito ao seu efeito moral. Enquanto aos seus benefícios materiais, é de todo modo falso que satisfaça as necessidades da população escolar.

Não apenas existe nesta república, por exemplo, meio milhão de crianças que não desfrutam da chamada “educação gratuita”, como dois terços dos demais a recebe em péssimas condições, não apenas pedagógicas, se não que de higiene, pois centenas de escolas da campanha argentina estão localizadas em locais apenas úteis para cocheiras. E isto em um país que se engrandece muito de sua opulência econômica.

Aqui está, pois, como o Estado, órgão de classe que obedece em todas as suas gestões aos interesses das minorias dominadoras, fracassa enormemente desde o ponto de vista científico, social e humano no seu imperialismo educacional. Mais ainda: aqui está como se impõe a necessidade de conjurar o grande perigo que entranha a causa da liberdade e da razão, o monopólio estatal do ensino.

O problema da educação é um problema pedagógico-social de fundamental importância para a existência social contemporânea. De acordo com a educação que dermos à nossxs filhxs, teremos preparado: ou o advento da luz, da liberdade e da justiça, ou a perpetuação do erro, da dor e da tirania.

É olhando, então, desde o cume dos fenômenos sociais e não desde o claustro da pedagogia, esse instrumento do melhoramento humano, que se chama escola, como deve encarar o povo estes assuntos.

A educação popular é esforço combinado das massas pensantes que sonham sonhos de redenção, e dxs professorxs, que são xs operárixs da inteligência, quando levantam com fé e independência a bandeira de seus ideais educativos, poderão salvar a causa da educação.

Este é o século destinado a consagrar no mundo, o direito dos fracos, a felicidade dos humildes. A mulher, a criança, os pássaros, as árvores: tudo o que constitui o sal e o regozijo da vida, o perfume e o encanto da terra, a luz e o sorriso dos céus. E o povo, que é na verdade muito mais que nossos famosos príncipes da arte, o grande lírico por excelência, o incurável Quixote do ideal, o eterno e grande poeta em ação, será o encarregado de abrir para o porvir todos os anseios novos, que por serem grandes e altruístas, são também fortes e belos.

Em todos os lugares onde o povo tem se apressado a intervir com sua iniciativa e sua vontade na educação de seus filhxs, a obra educacional tem alcançado um progresso enorme. Entre nós, apenas uma minoria seleta tem sentido paixões idealistas pelo ensino. Mas a ação conjunta dessa minoria pode, em pouco tempo, criar ambiente propício na opinião pública a favor das escolas livres do povo, que o povo mesmo fundará e sustentará dentro de pouco tempo neste país, para seu próprio benefício.

Não basta reconhecer que a escola atual é ruim. Nos interessa demonstrar que somos capazes de torná-la melhor. Tal é o fim generoso e grande que hoje une xs fundadores desta liga popular de educação racionalista e que desejamos fazê-la extensiva para toda a República.

Tradução livre por S.N.

Sugestões, críticas e correções via comentário ou pelo email: difusaolibe@gmail.com


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