FRANCISCO FERRER E A PEDAGOGIA LIBERTÁRIA¹

4 11 2012

I Educação & liberdade

“Se não for libertária,

toda pedagogia é autoritária”

            A pedagogia é uma área de investigação humana na qual predomina, como é o caso da história e da sociologia, uma abordagem política. Este ponto de vista predominante é  facilmente justificável não apenas por causa da reflexão sobre os resultados sociais da educação, ou seja, a questão de saber se o ensino envolve reprodução ou transformação da realidade social, mas também em função nda natureza das relações de poder que permeiam o próprio contexto de ensino-aprendizado. Sendo mais direto e provocador: será que o saber é gerador de assimetrias? Será que só é possível aprender com base na obediência?

Desde a perspectiva anarquista de conceber a política, temos duas formas básicas de relação interpessoal: a vertical e a horizontal. Na primeira forma, predomina um desequilíbrio da relação humana através da sobreposição ou imposição da vontade de um só ou de um grupo minoritário sobre os outros. Temos, portanto, na relação vertical diferentes tipos de dominação e hierarquia. Na segunda forma, temos uma relação baseada no entendimento mútuo, numa associação livre entre sujeitos históricos que se autogovernam, na qual todos os envolvidos participam diretamente da organização das atividades em pauta e na tomada de decisões.

Há uma antiga palavra para descrever este tipo especial de convívio humano: “anarquia”, ou seja, ordem na ausência de dominação exterior.

A realização desse tipo de sociabilidade, de convivência, pode ser constatada em todos os âmbitos da vida humana, incluindo a educação. A pedagogia libertária é fruto do esforço de diferentes anarquistas para criar instituições e estratégias de fomento e difusão de saberes que permitam a realização da educação para a liberdade, através da liberdade. Este campo de processos educativos libertários ilustra de modo bastante claro a máxima libertária de que “os fins já estão inseridos nos meios”.

Um obstáculo central para o projeto de uma educação livre consiste no fato de que vivemos todos numa sociedade amplamente organizada em termos verticais. A necessidade de educação livre surge diante da deformação autoritária que sofremos na vida social. Em todos os espaços sociais encontramos a presença de personagens ou funções impositivas, na família o pai, na escola o professor, na rua o policial, no trabalho o patrão, etc. Somos submetidos desde a infância a uma socialização que está sempre marcada pela ênfase na repetição das assimetrias e na falta de autonomia. Por isso, a pedagogia libertária nunca esteve restrita ao âmbito da escola ou das instituições de ensino.

É necessário modificar a formação humana não apenas na escola formal, mas também na vida familiar e comunitária, na medida em que estamos continuamente aprendendo e ensinando uns aos outros. Ainda assim, a criação de escolas livres e/ou de espaços alternativos como lugar de aprendizagem e intercâmbio de ideias não deve ser subestimado, pois se trata de uma ação direta que abre a possibilidade concreta de aprendizado da liberdade. A pedagogia libertária é necessária não apenas para aprendermos na liberdade, mas para aprendermos a ser livres conjuntamente.

No movimento anarquista, a clareza a respeito da necessidade de escolas e espaços é uma constante que atravessa os contextos históricos e sociais. A educação sempre foi vista como um elemento central para a transformação social, ainda que a contribuição da educação nunca tenha sido isoladamente, nem muito menos encarada como a panaceia universal. De qualquer modo, pressupondo que nenhuma ordem social e política é sustentada apenas na base do chicote e do dinheiro, ou seja, através do poder político e econômico, os anarquistas rapidamente reconheceram a importância da luta ideológica, defenderam o papel da transformação da consciência e da visão de mundo.

Através da transmissão de um sistema de crenças e valores, a família e a escola contribuem de modo bastante essencial para a manutenção da realidade social. Há, por assim dizer, um tipo de escravidão psicológica que deve ser superado juntamente com o fim da exploração econômica e a opressão política.

II  Escola Moderna²

   “Não há educação libertária

que não seja autoeducação”

Dentre as inúmeras experiências históricas de aplicação prática das concepções da pedagogia libertária, pode-se destacar a escola fundada em 1901, pelo pedagogo Francisco Ferrer y Guardia.

Fuzilamento de Ferrer

 

Ferrer foi antes de tudo um homem de ação, ainda assim a sua principal realização, a fundação da escola moderna, estava inspirada num amplo projeto pedagógico baseado no exercício da razão, no incentivo da experimentação com as coisas e observação do mundo. Foi uma grande contribuição para a socialização do conhecimento numa Espanha ainda muito agrária, controlada pela superstição religiosa de dominação e com altos índices de analfabetismo, em um contexto quando a apropriação da leitura-escrita já era uma arma.

Nas suas palavras: “A verdade é de todos e socialmente se deve a todo mundo. Colocar-lhe um preço, reservá-la como monopólio dos poderosos, deixar em ignorância sistemática os humildes e, o que é pior, dar-lhes uma verdade dogmática e oficial em contradição com a ciência para que aceitem sem protesto seu estado ínfimo e deplorável sob um regime político democrático é uma indignidade intolerável e, da minha parte, julgo que o protesto mais eficaz e a ação revolucionária mais positiva consiste em dar aos oprimidos, aos desertados e a todos aqueles que sentem impulsos justiceiros esta verdade que lhes é escondida, determinante das energias suficientes para a grande obra de regeneração da sociedade.” (Escola moderna, p.7)

De fato, a escola tem, para os anarquistas, sobretudo uma função social e política. Isto se evidencia não somente através da contribuição que ela fornece para a mudança de perspectiva e concepção, mas principalmente na medida em que oferece para os trabalhadores uma opção real de aprendizado para além das escolas e institutos organizados pelo estado e pela igreja. A principal ação social da pedagogia libertária, proposta pelos anarquistas, era fornecer escola para as crianças e possibilidades de profissionalização para os adultos oriundos da classe trabalhadora urbana e rural. Promovendo a crítica social ao formar indivíduos independentes, as escolas e locais visavam antes de tudo oferecer um acesso popular ao saber e ao conhecimento. A socialização acontecia também de modo inovador através da introdução do ensino misto, concedendo a escola moderna um papel importante na emancipação da mulher e na origem do forte movimento feminista espanhol.

Esta não era a única renovação na estrutura e funcionamento do ensino promovido pela escola moderna de Ferrer. É possível citar três propostas inovadoras que permanecem instigantes justamente pela sua ausência na maioria das instituições de ensino atuais.

Em primeiro lugar: a inexistência de exames, de provas.

No entendimento de Ferrer, no contexto da educação infantil as provas somente fortalecem a competição entre as crianças, gerando um processo de individualização prejudicial ao convívio social. Em paralelo a isto, o exame estabelece uma relação de controle e punição entre o professor e o estudante quebrando com a espontaneidade crucial em um processo educativo orgânico.

Em segundo lugar, Ferrer destacou no tempo das atividades escolares um espaço amplo para: o exercício do jogo e das brincadeiras.

De acordo com a concepção da pedagogia que aplicava, o jogo não é apenas defensável como um meio eficaz para fins louváveis como a manutenção da saúde corporal, o avanço do desenvolvimento físico, a contribuição na descoberta de habilidades e predisposições, além de revelar o caráter das crianças. A despeito de tudo isso, o jogo era importante em si mesmo por ser uma ação natural da criança, por ser “um desejo satisfeito pela atividade livre.” (Escola moderna, p. 22)

Por último, é importante ressaltar em terceiro lugar que Ferrer reconhecia e valorizava: o papel do sentimento na educação livre.

A proposta pedagógica da escola moderna é conhecida como pedagogia racionalista libertária em função da ênfase na defesa da razão como instrumento de autonomia, como expressão da capacidade crítica de cada indivíduo humano frente a superstição, a mentira e mitos. Apesar disto, Ferrer não excluía a mediação da sensibilidade e dos afetos no aprendizado e no ensino.

A justificativa para a valorização do sentimento provém da ideia de uma educação integral proposta por Bakunin e desenvolvida por outros anarquistas. De acordo com esta concepção, a educação deve abranger a totalidade do ser humano, na sua dimensão intelectual, corporal e ética. A formação do ser humano não pode apenas instruir e alimentar a inteligência com cultura e ciência, mas também prepará-lo fisicamente através do esporte, dos exercícios corporais para conquistar flexibilidade e da profissionalização como preparação para o trabalho. Complementando o cuidado com o corpo e com a inteligência, a educação deve buscar uma formação do caráter através da transmissão de valores ético e, principalmente, através do convívio livre entre os integrantes da escola.

A aplicação desta concepção de educação integral não apenas justifica e esclarece a valorização do sentimento, mas também a estratégia educativa de iniciar o aprendizado pelas matérias práticas para posteriormente incluir os assuntos mais intelectualizados que requerem maior abstração. A criança não possui inicialmente um interesse direto por assuntos científicos, a apresentação dessas matérias deve ser antecedido por uma experimentação com o mundo, a observação e trato prático com as coisas.

A preocupação na unidade destes três elementos, tendo como referência principal a própria criança e seu desenvolvimento, permite Ferrer afirmar que “todo o valor da educação reside no respeito à vontade física, intelectual e moral da criança.” (Escola moderna, p. 31)

Este pode ser descrito como o critério fundamental da pedagogia libertária. O que mantém o caráter horizontal na relação de ensino-aprendizagem é justamente a centralidade do interesse daquele que aprende. Não é aceitável a imposição do aprendizado, ou seja, apresentar respostas para perguntas que não foram feitas. O aprendizado livre é o que é conduzido pelo próprio aprendiz, ainda que auxiliado por alguém. Desse modo, a educação livre revela-se sempre como uma forma de auto-educação ou autoaprendizado, do qual o autodidatismo é apenas um tipo possível.  Esta atitude diante do saber é um exemplo da atitude predominante entre os seres humanos livres que a própria educação pretende gerar.

A meta da educação desenvolvida pela escola moderna é a formação do ser humano que assume sua existência de modo independente e livre, sempre movido por um espirito de fraternidade universal. Neste sentido, enfatiza a autonomia do pensamento, a socialização do saber, promovendo a experimentação com o mundo, a celebração da vida, a proximidade com a natureza. Nas palavras de Ferrer: “Não tememos dizê-lo: queremos homens capazes de evoluir incessantemente; capazes de destruir, de renovar constantemente os meios e de renovar a si mesmos; homens cuja independência intelectual seja a força suprema, que não se sujeitem a mais nada; dispostos sempre a aceitar o melhor, felizes pelo triunfo das ideias novas e que aspirem a viver vidas múltiplas em um única vida. A sociedade teme tais homens: não pode, então, se esperar que algum dia queria uma educação capaz de produzi-los.” (Escola Moderna, p.32).

 

¹Texto organizado por Difusão Libertária por ocasião da 1ª Jornada de Pedagogia Libertária – Ato I

² Baixe o arquivo do livro  A Escola Moderna

ATO II

Dias 04 e 05 de dezembro, de 2012 – Centro de Educação – UFPE





Comunicado comum dos anarquistas russos e sírios

16 02 2012

Às massas, aos oprimidos e aos revolucionários da Federação Russa e da Síria

Nós, anarquistas russos e sírios, constatamos a colaboração medonha entre os dois regimes repressivos sírio e russo, e o apoio ao regime dirigente sírio em sua repressão sangrenta que exerce o governo do presidente Bashar Assad contra as massas sírias em revolta, ao mesmo tempo que mune em provisões e armamentos as forças de Assad e fornece uma proteção diplomática aos massacres de Assad. Nós a vemos como o resultado lógico da similitude quanto à natureza repressiva e exploratória dos dois regimes, e
como uma parte da guerra que eles conduzem contra os oprimidos do seio de seus povos.

Como anarquistas e antiautoritários, nós condenamos essa colaboração medonha e as práticas repressivas dos dois regimes, e apelamos a uma forte e fraternal solidariedade entre as massas reprimidas, os evolucionários e os anarquistas dos dois países, na sua luta contra as elites repressivas dos dois países.

Ação Autônoma – Rússia

Movimento Anarquista Feminista Sírio

Anarquistas Sírios

Fonte: Agência de Notícias Anarquistas – ANA





“QUANDO OS DE BAIXO SE MOVEM OS DE CIMA CAEM!”

29 01 2012

Nota pública dos Anarquistas de Pernambuco acerca do Movimento contra o Aumento da Tarifa.

Em reportagem de 24.01.2012 do portal Folha de Pernambuco, “Protesto termina com confronto violento entre polícia e manifestantes” [http://www1.folhape.com.br/cms/opencms/folhape/pt/cotidiano/noticias/arquivos/2011/outubro/0268.html], entrevistas atribuíram “aos anarquistas” a continuidade das manifestações na Avenida Conde da Boa Vista. Sobre esta falácia e falta de sensibilidade com a maioria de manifestantes independentes, temos algumas considerações:

* Não se pode irresponsavelmente taxar uma maioria que se agrega a um ato de “anarquista” só porque esta maioria agiu fora das linhas definidas por algumas organizações. Este raciocínio pretende associar desorganização a Anarquismo de maneira grosseira e deliberada, se aproveitando do senso comum em torno do termo para deslegitimar o grupo resistente e fazer anti-propaganda ideológica. Um desrespeito a uma corrente histórica do Socialismo que, apesar de obscurecida, possui princípios bem definidos [autogestão, classismo, democracia de base, federalismo]. Não ter partido não é sinônimo de ser anarquista. Além disso, afirmações deste gênero são manobra para se eximir da responsabilidade de continuar na manifestação e garantir a segurança mínima dos que se agregaram ao protesto, bem como um rótulo posto à força em quem não tem filiação ideológica. É preciso coragem, e não cartilhas, para resistir.

* Nós, anarquistas de Pernambuco, não estamos à frente, tangendo nem dirigindo. Não partilhamos da concepção VANGUARDISTA de fazer política. Não estamos nem à frente nem atrás, mas ombro a ombro com aqueles que de fato estão construindo as manifestações, a partir das bases, como povo. Afinal, se queremos compartilhar como companheiros, como iguais, como iguais devemos nos portar. Não é ético nos destarcamos da grande massa e nos utilizarmos dela para controlá-la, não verdadeiramente promovendo princípios e ideais, mas grupos e entidades, ou até pior: auto-promovendo-se. Não precisamos de chefes. Nâo precisamos de donos. Temos o direito de participar. De decidir. E isso se faz junto, não à parte. Devemos reivindicar não apenas as pautas do movimento, mas nosso DIREITO DE PARTICIPAÇÃO. Claro: com responsabidade. Mas a responsabilidade deve ser partilhada, deve ser coletiva, como coletivo é o ato. Pois como diz aquela velha máxima, “um povo forte não precisa de chefes”.

* Damos total apoio ao movimento contra o aumento das passagens por ver nele uma resposta popular aos desmandos de Eduardo Campos que age como ditador do alto de seus 82% de aprovação nas eleições. É dele a violência, não daqueles que se manifestam. Não devemos confundir desobediência civil e ação direta com “caos” e “bagunça”. Afinal, por que o ato daqueles que tão-somente paralisam vias de trânsito (desarmados e tendo como anteparo seu próprio corpo) é tido como “violento” quando, do outro lado, a polícia responde com truculência, bombas de gás lacrimogêneo, spray de pimenta e abuso de autoridade?

* Ao contrário de alguns oportunistas, não é nossa pretensão fazer de um movimento popular palanque e trampolim político visando as eleições que estão às portas. Não nos enganemos: alguns daqueles que hoje levam bala de borracha nas manifestações são os que amanhã fazem do parlamento carreira e profissão, estorquindo o povo com salários astronômicos de 5 digítos. Ao nosso ver, o foco de todos deve ser, de fato, barrar o aumento, além de retirar as rédeas das mãos do punhado de 5 ou 6 famílias que privadamente mandam no transporte “público” viário da Região Metropolitana. Quem luta por esse objetivo está do lado do movimento e do povo.
É direito inalienável nosso a livre manifestação tanto de idéias quanto de repúdio às arbitrariedades daqueles que, “em cima do trono”, fazem da cidade uma praça de guerra. O dever de todos neste momento é lutar junto àqueles que reivindicam prerrogativas básicas como a de ir e vir ou a de simplesmente dizer “basta”. Façamos coro para tirarmos os direitos do papel e transformá-los na prática em realidade.

Pois a cara feia da polícia é a verdadeira face do Estado e do Governo Eduardo Campos.

Vamos à luta contra o aumento!
Pelo Passe Livre!
À frente os que constroem o Poder Popular!

Assinam:
Coletivo Anarquista Núcleo Negro
Difusão Libertária